sábado, 13 de junho

EUA planejam combater o bicho‑da‑carne com milhões de moscas estéreis
Ciência 08/06/2026

EUA planejam combater o bicho‑da‑carne com milhões de moscas estéreis

Estados Unidos retomam a estratégia de insetos estéreis para impedir a disseminação do parasita que ameaça o rebanho e a saúde humana.

O retorno do bicho‑da‑carne nos EUA

Após seis décadas livre de infestações, o bicho‑da‑carne (New World screwworm) foi detectado em um bezerro no sul do Texas. O parasita havia sido erradicado no país em 1966 e, até 2006, já não era encontrado nem no Panamá. Sua reaparição no México em 2022 elevou a preocupação de que cruzasse a fronteira norte novamente.

Modelos de dispersão indicavam que o inseto poderia chegar ao Texas já no verão de 2025. Na prática, o evento ocorreu alguns meses depois, forçando autoridades a adotarem medidas de contenção imediato. O USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) isolou um perímetro de cerca de 12 milhas ao redor do animal infectado e iniciou o lançamento de moscas estéreis para impedir a propagação.

Técnica do inseto estéril: como funciona

A Técnica do Inseto Estéril (SIT) baseia‑se em irradiar machos do parasita para torná‑los incapazes de gerar descendentes. Quando esses machos são liberados no ambiente, eles competem com os machos selvagens e fecundam as fêmeas, que normalmente acasalam apenas uma vez na vida.

O resultado é a produção de ovos inviáveis. Sem larvas para se desenvolver, a população de bicho‑da‑carne colapsa rapidamente. O método foi testado com sucesso na ilha de Curaçau (Caribe) na década de 1950, eliminando a praga em apenas sete semanas e salvando rebanhos de cabras essenciais para a economia local.

Especialistas destacam que a SIT é um dos poucos exemplos de controle biológico totalmente eficaz. “O ciclo de vida é interrompido, não há progenitura e a população desaparece”, afirma a professora Sally DeNotta, da Universidade da Flórida.

Desafios de produção e investimentos do USDA

Para ser eficaz, a estratégia exige a liberação de centenas de milhões de moscas estéreis por semana. O USDA estima que são necessários cerca de 400 milhões de indivíduos semanalmente para conter uma emergência.

No momento, a capacidade de produção está limitada a aproximadamente 100 milhões de moscas por semana, fabricadas em uma instalação no Panamá. Uma planta mexicana, que era dedicada a moscas da fruta, foi desativada em 2012.

O governo federal destinou US$ 21 milhões para reativar essa fábrica em Metapa, México, com a meta de gerar entre 60 e 100 milhões de moscas adicionais por semana ainda neste verão. Paralelamente, está em construção um complexo de US$ 750 milhões em Moore Air Base, Edinburg, Texas, que deverá operar a partir de novembro de 2027.

Enquanto isso, cerca de 4 milhões de moscas estéreis são lançadas por via aérea diariamente na zona fronteiriça, e a produção está sendo intensificada para alcançar a meta de 100 milhões semanais.

Impactos para a pecuária e a saúde humana

O bicho‑da‑carne ataca feridas abertas de animais de sangue quente, depositando ovos que eclodem em larvas vorazes. O dano pode ser fatal para bovinos, ovinos e caprinos, gerando perdas econômicas significativas para o setor agropecuário.

Embora o parasita não contamine alimentos, ele pode infectar humanos. Desde 2023, a CDC registrou mais de 2 mil casos humanos na América Central, reforçando a urgência de conter a praga antes que novas infecções se espalhem.

DeNotta alerta que uma única fêmea pode depositar centenas a milhares de ovos, facilitando a rápida colonização de novos hospedeiros. Por isso, embora o caso isolado no Texas seja um ponto de partida, as autoridades acreditam que novas ocorrências são praticamente inevitáveis sem a SIT em escala máxima.

Com investimentos robustos e a reativação das fábricas de moscas, os EUA esperam suprimir novamente o bicho‑da‑carne, garantindo a segurança do rebanho e reduzindo o risco de zoonoses. O sucesso dependerá da rapidez na ampliação da capacidade produtiva e da eficácia da distribuição das moscas estéreis ao longo das áreas vulneráveis.

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