sábado, 8 de agosto

A Eletrizante História da Ferrovia Elétrica Hershey em Cuba: Do Chocolate ao Transporte Moderno
Tecnologia 26/04/2026

A Eletrizante História da Ferrovia Elétrica Hershey em Cuba: Do Chocolate ao Transporte Moderno

Descubra como a paixão de Milton Hershey por Cuba e a necessidade de açúcar impulsionaram a criação de uma das mais notáveis ferrovias elétricas do Caribe, e seu legado até os dias atuais.

Da Doçura à Mobilidade: A Saga da Hershey em Cuba

Em um cenário onde a paixão por doces encontra a engenharia audaciosa, a história da Hershey Electric Railway em Cuba é um capítulo fascinante e, por muitas décadas, esquecido. A pergunta que intriga é: por que uma gigante do chocolate se aventurou na construção de ferrovias? Para Milton S. Hershey, a resposta era pragmática e estratégica, especialmente diante das turbulências da Primeira Guerra Mundial, que impactaram severamente o fornecimento de açúcar.

A Hershey Chocolate Co. já era, na época, uma força consolidada na indústria, aperfeiçoando a automação e a produção em massa de seus icônicos produtos, como o Hershey’s Milk Chocolate Bar e o irresistível Hershey’s Kiss. A demanda crescente por seus doces exigia um suprimento de açúcar constante e confiável. Mais do que isso, Hershey almejava quebrar o monopólio da American Sugar Refining Co., conhecida como o "Sugar Trust", que dominava o processamento de açúcar nos Estados Unidos.

A Ilha Encantada e a Visão de um Magnata

A partir de 1916, os olhos de Hershey se voltaram para Cuba, uma ilha que, segundo o historiador Thomas R. Winpenny, exercia uma "infatuação pessoal" sobre o magnata. A beleza exuberante da ilha, aliada à proteção dos interesses comerciais americanos garantida pela Emenda Platt, tornava o local um campo fértil para investimentos. Hershey, alinhado com a filosofia da integração vertical, expandiu suas operações cubanas para abranger cinco plantações de cana-de-açúcar, cinco usinas modernas, uma refinaria, diversas cidades operárias e uma usina termoelétrica, tudo interligado por uma infraestrutura robusta.

O coração dessa operação logística era a ferrovia. Para otimizar o rendimento do açúcar, o corte da cana precisava ser seguido de moagem imediata. O sistema ferroviário tornou-se o elo eficiente, transportando a matéria-prima para as usinas e garantindo sua operação contínua durante a safra. Em 1920, uma das principais unidades da Hershey em Cuba processava impressionantes 135.000 toneladas de cana, resultando em 14,4 milhões de quilos de açúcar.

Inicialmente, a Hershey Cuban Railway operava com sete locomotivas a vapor em uma única linha de 56 km. No entanto, os altos custos do combustível importado e a ineficiência das máquinas levaram Hershey a um passo revolucionário para a ilha: a eletrificação da linha, iniciada em 1920. Embora fosse a primeira ferrovia eletrificada de Cuba, a tecnologia já era adotada em outras partes do mundo.

Cidades Utopias e Um Legado Complexo

Central Hershey, a cidade operária que se tornou o quartel-general das operações cubanas da Hershey, personificava o modelo de "utopia industrial" que Milton Hershey já havia implementado em sua cidade natal na Pensilvânia, inspirada pelo vilarejo de Bournville, na Inglaterra. Em Cuba, a fábrica era complementada por moradias confortáveis, piscinas, campos de baseball e clínicas médicas acessíveis. A educação gratuita para os filhos dos trabalhadores era um pilar, ecoando o compromisso filantrópico de Hershey, que fundou a Hershey Industrial School para órfãos.

Um dos capítulos mais sombrios dessa história ocorreu em 1923, quando um trágico acidente na Hershey Electric Railway, uma colisão frontal de alta velocidade entre dois trens, ceifou a vida de 25 pessoas e feriu outras 50. A escola agrícola fundada posteriormente em Central Rosario, a Hershey Agricultural School, teve seus primeiros alunos justamente entre os órfãos desse fatídico acidente.

A visão de Milton Hershey, embora filantrópica, não estava isenta de controvérsias. Sua oposição a atividades sindicais e o uso de mão de obra migrante sazonária, que pressionava os salários locais, são pontos de debate histórico sobre o impacto do imperialismo econômico dos EUA em Cuba.

O Futuro da Estrada de Ferro Elétrica

Após a morte de Milton Hershey em 1946, a empresa vendeu suas operações cubanas. A Central Hershey continuou operando a refinaria até 2002, e o serviço de passageiros da Hershey Electric Railway persistiu de forma esporádica, até mesmo na década de 2010. No entanto, as crônicas escassezes de eletricidade em Cuba têm dificultado significativamente a operação da linha eletrificada.

Análises recentes exploram o potencial de reativação da ferrovia, considerando-a uma possível estratégia contra as mudanças climáticas e fatores geopolíticos. Contudo, a infraestrutura danificada e a instabilidade energética levantam questionamentos sobre a viabilidade da eletrificação, com defensores de motores a diesel ganhando espaço. Apesar dos desafios, a esperança reside em um futuro onde as relações políticas se estabilizem e a rede elétrica cubana seja fortalecida, permitindo que a icônica Hershey Electric Railway volte a trilhar seus caminhos, conectando pessoas e revivendo um pedaço da história tecnológica da ilha.

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